“Preciso contar que sou trans, travesti ou mesmo homossexual em uma entrevista de emprego?”. Perguntas como esta são mais recorrentes do que se pensa, pois, algumas empresas ainda submetem candidatos a esse posicionamento. Mas, será mesmo que é necessário? Como proceder nessas situações?
Emanuel Ferreira, 27 anos, redator publicitário conta sobre seu processo, desde o início da transição nas fases das suas entrevistas de emprego.
Quando eu comecei a procurar estágio, bem no início da transição, eu estava bem naquela fase andrógina, em que as pessoas olham e falam: o que é isso, um menino ou uma menina? E quando eu ia fazer as entrevistas eu fiz alguns testes. Em algumas eu chegava e falava que era trans, já logo de início, e geralmente as respostas eram bem negativas, o pessoal já não dava tanta moral durante a entrevista. Depois eu inverti e decidi não falar, só vou falar se chegar na última fase da entrevista e aí era inevitável, por que meus documentos ainda não eram retificados e eles iriam precisar de que eu assinasse o contrato com todos os meus dados, não teria como não falar.
Eu tive um caso bem específico. Fui fazer a entrevista em um lugar para Marketing de Conteúdo, passei em todas as etapas, cheguei na última, ficou entre eu e um outro rapaz, e aí eu trouxe a questão trans e expliquei que meus documentos não eram retificados ainda, mas que gostaria que todo o meu tratamento continuasse sendo como esse, já que como eles podiam ver eu me reconheço como rapaz. Então, vários empecilhos apareceram: “ah… mas como a gente vai fazer com o chachá? Mas a empresa tem a cabeça muito fechada… as pessoas não vão aceitar.”.
Nas minhas experiências com relação a trabalho eu senti pressão. É meio que uma coisa obrigatória falar, caso você não tenha documento retificado.
Emanuel, hoje, tem seus documentos retificados e faz a hormonização.
Eu ainda não tive nenhuma experiência pós-retificação de documentos, mas eu me sinto, mesmo sem experiência, muito mais leve de não falar que sou trans, já apresento meus documentos e é isso, a pessoa não pode me questionar, por que é meu documento.
Perguntamos nas redes sociais (Instagram @bichadajustica | https://www.instagram.com/p/Bu4t2-OHMX5/) se vocês revelavam que eram LGBTI+ nas entrevistas de emprego, e várias respostas sobre experiências foram recebidas.
“Eu não falo e ainda estou passando por dificuldades, meus últimos 2 empregos fui demitido por homofobia agora é como se todas as portas se fechassem pra mim, além de não conseguir mais emprego eu não me sinto à vontade em nenhum lugar mais.”
“Eu falo que sou trans”
“Porque não, quando perguntam lógico mas!se não me perguntar não fico expondo minha vida;o mais importante é estar bem comigo.’.
“sim, quantas oportunidades perdidas por isso. Triste e revoltante”.
Com relação à sexualidade, ela é uma questão de foro íntimo e em nenhum momento se vê a obrigatoriedade de sua declaração, nem durante a entrevista, nem posteriormente, na efetivação da vaga.
Quanto a questão do gênero, se os documentos de nome e gênero já estão retificados, não se tem a obrigação legal de informar que é uma pessoa transgênero, pois a apresentação social dela corresponde com o que está escrito nos documentos, além do fato de que ser transgênero ou cisgênero não influencia nas atividades a serem desempenhadas, na maioria das vezes. Agora, se os documentos de nome e gênero não são retificados, a pessoa, no ato da entrevista não precisa declarar seu gênero, caso sinta-se desconfortável. Porém, em caso de contratação, na fase de entrega da documentação, é oportuno que explique ser uma pessoa transgênero e que está em fase de retificação de documentos, pois na maior parte das vezes nem mesmo o RH da empresa sabe o que é uma pessoa transgênero e, às vezes, uma simples explicação é suficiente para esclarecer.
De qualquer forma, o que precisa ficar claro é que o empregador não pode desclassificar pessoas transgêneras do processo seletivo de emprego exclusivamente em razão da identidade de gênero, pois, do contrário, haveria grave violação à lei, que poderá dar causa a obrigação de indenizar a pessoa trans em razão dos danos morais sofridos.
1.Registre ao máximo toda evolução do processo seletivo, como e-mails, sms, whats, entre outros.
2.Se receber uma ligação falando que passou no processo seletivo, peça que o Recursos Humanos- RH da empresa envie para você por e-mail ou por mensagem, constando que você passou e detalhes da documentação.
3.Eventualmente, se a empresa desistir da sua contratação por questão de gênero, na fase de apresentação de documentos, por exemplo, se encaixa como transfobia e você pode processar e a partir disso, deve ser indenizado pelo proprietário da empresa por danos morais e até mesmo materiais, se for o caso, pela transfobia gerada.
Já passou ou está passando por alguma situação constrangedora no mercado? Não deixe de seguir as orientações e nos procurar. Casos de transfobia e Homofobia no trabalho precisam ser denunciados e nós podemos te ajudar.
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