Abre alas para a diversidade

março 14, 2019 0 Por Rubia Cely

Enredo contempla índios, negros e pobres

Bandeira do Brasil da Mangueira. Foto: Fernando Grilli | Riotur
Foto: Fernando Grilli | Riotur

A Estação Primeira de Mangueira desfilou no dia 4 de março, segundo dia, pelo grupo especial. Vencedora do carnaval 2019 trouxe mais que diversão e samba para os espectadores, trouxe conscientização.

“Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento; Tem sangue retinto pisado; Atrás do herói emoldurado; Mulheres, tamoios, mulatos”, trecho do enredo.

O samba enredo deste ano trouxe intensas críticas a história do Brasil, questionando a versão única dos fatos que é ensinada aos brasileiros desde à infância. “Se a história oficial é uma sucessão de versões dos fatos, o enredo que proponho é uma “outra versão”. Com um povo chegado a novelas, romances, mocinhos, bandidos, reis, descobridores e princesas, a história do Brasil foi transformada em uma espécie de partida de futebol na qual preferimos “torcer” para quem “ganhou”. Esquecemos, porém, que na torcida pelo vitorioso, os vencidos fomos nós.”, explica o portal oficial da Mangueira.

O desfile trouxe protagonismo para as vozes que importam e que por anos foram oprimidas: índios, negros, pobres e também mulheres. O enredo transcorreu sobre as tragédias que ocorreram no país, dentre elas o assassinato de Marielle Franco – socióloga, política, feminista e defensora dos Direitos Humanos – em 14 de março do ano passado, mais uma mulher que foi silenciada brutalmente.

As críticas estão em cada verso, dando visibilidade para as multiplicidades do Brasil. A diversidade foi pauta desse carnaval. Um assunto para ser discutido não apenas em congressos ou manifestações, mas principalmente no cotidiano e de maneira natural.

A vitória da Mangueira trouxe avanço e reflexão, mostrou que se vence falando sobre as urgências e que o momento para se falar sobre temas velados é o tempo todo. Multidões se reconheceram nos versos do samba e a partir dessa semente irão querer florescer em outros espaços.

O enredo

História pra Ninar Gente Grande

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês